Para a Psicanálise, este comportamento é uma articulação da mente que não está suficientemente preparada para enfrentar o real e desenvolve recursos de fugaPor cássia A. nuevo Barreto Bruno*
Nem sempre temos uma mente suficientemente forte para suportar uma dor, um sofrimento, ou porque a mente encontra-se frágil, com estafa, ou porque a dor é grande demais, um trauma.
Desse ponto de vista já deu para perceber que a Psicanálise não visa à supressão, repressão do comportamento compulsivo. Seu objetivo é o fortalecimento da mente para que esta esteja apta a suportar maior intensidade de sofrimento sem precisar recorrer a esse tipo de defesa compulsiva.
Sabemos que a mente é o resultado da interação de recursos internos que são desenvolvidos em decorrência de solicitações internas ou externas. Isso nos remete à ideia de que os distúrbios psí- quicos são recursos mentais altamente sofi sticados e desenvolvidos pela mente como meio de lidar com as exigências do real. Neste sentido, toda a humanidade lança mão desse recurso; o que varia é o grau de intensidade dos estímulos externos e a capacidade psicológica de desenvolver meios, mais ou menos adequados para lidar com tais exigências, e que variem em diferentes momentos da vida. Todos nos utilizamos de mecanismos menos eficientes, no sentido de crescimento e desenvolvimento, em certas situações da vida; são os nossos pontos cegos.
"Diante de uma frustração, o aparelho mental não consegue elaborar uma dor menor"
O que ocorre no atendimento psicanalítico é que, no processo de investigação da mente, as funções psíquicas vão se desenvolvendo e, consequentemente, tornam-se mais eficazes para lidar com suas dificuldades.
Teoria Freudiana
Freud fornece esclarecedora informação sobre qual é a área que deve ser abordada pela Psicanálise: uma vez esclarecidos os alicerces da teoria freudiana, no caso das compulsões fica mais claro pensar o que ocorre nos distúrbios alimentares em relação à formação da mente.
Os processos psíquicos nessa específica área da mente relacionada ao distúrbio alimentar - algo como um cisto, já que as outras áreas estão preservadas - são muito primitivos em relação ao desenvolvimento global da mente, no sentido de que os recursos para lidar com o real são escassos e pouco elaborados. Nessa instância, a organização mental se articula por meio de princípios rígidos, leis autoritárias, regras definitivas e fixas. Nessa área a mente funciona de acordo com o princípio do prazer, isto é, evitando desprazer a todo custo.
Podemos nos perguntar: o que provoca tanto desprazer nos distúrbios alimentares que faz a pessoa regredir a momentos tão primitivos do desenvolvimento psíquico?
De acordo com a teoria freudiana, observa-se que recursos mais evoluídos da mente estão impossibilitados, neste caso, de seguir seu curso natural. Diante de uma frustração, a dor é tão forte que o aparelho mental não consegue elaborar uma alucinação do prazer que vise a elaboração da dor. Esta condição é necessária para a percepção de emoções e de imagens as quais, armazenadas na memória, resultam em formulações disponíveis para a formação de pensamentos, o que implica na possibilidade de lidar com o real de modo a produzir respostas mais eficientes.
O que ocorre, ao contrário, é uma tentativa última de evitar o aniquilamento psíquico diante da dor. A pessoa desenvolve uma série de recursos intrinsecamente relacionados, que lhe garante não o conforto, mas a sobrevivência. Não uma boa solução, mas a acomodação possível.
Sabemos que, nos casos graves, a fragilidade da mente é tal que o simples existir é motivo de sofrimento, de desprazer. A frase de Guimarães Rosa em Grandes sertões: veredas: "viver é perigoso", nesta situação, é levada às últimas consequências.
As complexas nuances da existência, sutis e microscópicas, que ocorrem quase despercebidamente para a maioria das pessoas, são experimentadas, nesses distúrbios, como a grande dificuldade. E a solução mágica e hipomaníaca encontrada é anestesiar-se na conduta compulsiva ou na desafetação.
Em Trânsito[disponível em: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/39/com-pulsao-e-disturbios-alimentares-para-a-psicanalise-este-131301-1.asp]
*Cássia A. Nuevo Barreto Bruno é psicanalista, membro da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi) e da International Psychoanalytical Association (IPA). Analista didata e atual diretora científi ca da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBP-SP).
compulsão é terrivel eu sou doida mesmo porque se estabeleci 1000 calorias por dia se eu comer uma bala a mais do que planejei ja me culpo o dia todo e o resto da semanae me sinto uma porca pra variar, quero emagrecer mais ianda
ResponderExcluir"o que provoca tanto desprazer nos distúrbios alimentares que faz a pessoa regredir a momentos tão primitivos do desenvolvimento psíquico?"
ResponderExcluirEssa parte do texto, mesmo estando em forma de pergunta, descreve bem o que eu penso dos distúrbios alimentares: uma regressão do desenvolvimento psíquico.
Já sofri muito com Anna, Mia e Conpulsão e hoje tento emagrecer saudável combinando dieta e academia. Me sinto muito mais racional agora.
:)